Dias sem história
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Ela deu-lhe o seu coração.
Claro que já não era um coração novinho em folha. Tinha sofrido algumas amolgadelas ao longo dos anos e até mesmo um grande acidente. Mas tinha sido sempre cuidadosamente reparado, e naquela altura estava mesmo em óptimo estado.
Então um dia ela deu-lhe o seu coração. Porque ele era uma pessoa especial, um homem diferente que a pouco e pouco soubera conquistar-lhe a confiança e inspirar amor. Gostavam de estar juntos e de fazer coisas juntos. Ele dava-lhe conselhos atilados e ela retribuía ajudando-o em escolhas por vezes difíceis, quando ele não sabia o que decidir. Eram como a água e o vinho, diferentes nas suas essências mas funcionando bem em conjunto.
Quando ela lhe deu o seu coração, apenas pediu para ele o guardar enquanto quisesse, e que durante esse tempo o tratasse bem. E ele cumpriu o melhor possível. Às vezes, muito raramente, lá se descuidava e sem querer magoava-o um bocadinho. Mas eram coisas de pouca monta, e o coração dela depressa sarava, até porque ele se encarregava de reparar rapidamente o estrago feito. E assim, sem pressas, com o passar dos dias, o coração dela e o dele começaram a bater em sincronia – e quem olhava para eles percebia isso no brilho dos seus olhos e nos sorrisos que trocavam. Juntos construíam momentos felizes, que se prolongavam pelo tempo em que estavam separados. E seguiam as suas vidas de mãos dadas.
Mas um dia o passado vestiu-se de acaso e atravessou-se-lhes no caminho, e por culpa desse acaso ele partiu-lhe o coração. E porque esse passado se transformou no futuro por onde queria seguir, ele tomou um caminho diferente e o coração dela ficou por consertar. Ela ainda lhe pediu para ele lho devolver, mesmo no mau estado em que estava; mas ele esqueceu-se, ou fez-se esquecido, e levou-o com ele.
Agora ela tem um buraco no lugar onde antes estava o coração. Já tentou colocar nesse buraco outros corações que foi encontrando, mas nenhum se encaixou bem naquele espaço especial. Que ela vai assim enchendo de memórias e desejos, lágrimas e esperanças, pequenos nadas e grandes gestos, numa tentativa vã de preencher um vazio que não tem fim.
Habituei-me a ser forte.
Habituei-me a não me queixar. A dar sem esperar nada em troca. A cumprimentar toda a gente com um sorriso nos lábios, e responder “Tudo bem!” quando me perguntam como estou.
Habituei-me a estar sozinha e a ser independente. A decidir para onde vou, quando e com quem. E habituei-me a contar apenas comigo.
Habituei-me a oferecer o meu ombro para amparar quem não está bem e a dar a minha atenção a quem precisa de desabafar. E ao mesmo tempo habituei-me a guardar para mim os meus desgostos, a não mostrar quando estou triste, a encolher os ombros quando algo não corre como eu gostaria.
Habituei-me às desilusões e aos baldes de água fria. A fingir que não sou sensível a certas atitudes, quando na verdade elas me causam embaraço, tristeza e até mesmo dor. E habituei-me também ao olhar dos outros que apenas vê a superfície e não se interessa por conhecer o que está mais fundo.
Habituei-me a só chorar quando ninguém me vê. A amar em silêncio. A ansiar sem nada dizer. A calar quando me apetece gritar.
Habituei-me a ter vazia a outra metade da cama, a acordar só e a dar os bons dias a mim própria.
Habituei-me a deixar a minha vida seguir o seu rumo.
Habituei-me. Não gosto, mas habituei-me. A tal ponto que a maioria das vezes sinto que em mim habitam duas pessoas diferentes: aquela que eu sou, e a que os outros vêem. Ou que eu mostro. Tanto faz.
Habituei-me a tudo isto e até mais, e por vezes já nem distingo o hábito do monge, já nem sei se eu sou mesmo assim ou se apenas me habituei a ser.
Habituei-me a muito.
Só ainda não me habituei a ser eu sem ti.
Embrulhada no sono, procuro na cama o teu calor. Deslizo sobre o colchão ao encontro do teu corpo, ansiosa por ti.
Mas as minhas mãos só encontram o nada. A frieza dos lençóis rasga o véu da minha inconsciência. Acordo de repente. Como se batesse contra um muro, a realidade da tua partida atinge-me com força. Sou subitamente invadida por um vendaval de emoções e o terror trepa por mim até o negrume dos seus dedos rodear o meu coração e o apertar como se quisesse exauri-lo de todo o sangue.
Falta-me o ar, falta-me o norte, falta-me o chão debaixo de mim e estou a cair no vazio, sugada pelo buraco negro deixado pela tua ausência, pelo vórtice da dor que me submerge e subjuga, que me esvazia de toda a alma.
É mais um dia que começa, mas esta mulher que aqui está já não é aquela que viveu ao teu lado. É apenas um fantoche sem bonecreiro, um zombie descerebrado e de olhar vítreo que se levanta e se lava e se veste, que sai de casa e conduz e trabalha, que fala e até sorri, e aparenta ser uma pessoa quando na verdade nada mais é do que um corpo que sobrevive, simplesmente sobrevive, alimentado e movido pela débil esperança de que um destes dias tu decidas regressar.
Abro a porta de casa e sou saudada pelo silêncio, abraçada pela ausência. O som dos meus sapatos no chão de tábua corrida marca o início de mais uma noite.
Flutua no ar um cheiro a frutos vermelhos que emana do difusor. Os estores estão corridos, imóveis na posição em que os deixei de manhã. Pouso a mala, repito pela milésima vez os gestos de todos dias, nem sempre pela mesma ordem, mas seguindo o fio condutor da minha linha de pensamento.
O corredor está mudo, a cozinha vazia. Não há recados na porta do frigorífico nem no espelho da casa de banho. E no roupeiro todas as peças são do mesmo sexo.
Coloco na mesa apenas um prato e um talher. Deito para o lixo uma única cápsula de café. As conversas sobre o dia que está a acabar só têm lugar dentro da minha cabeça; não se ouve o som de uma palavra ou de um riso.
Se o telefone chama, sou sempre eu quem vai atender. A minha voz é a única neste extremo da rede. No sofá reclina-se tão-somente o meu corpo, e só um par de olhos se fixa na televisão ou no computador.
Quando me deito, não há braços em volta dos meus ombros nem pernas entrecruzadas nas minhas. A cama está vazia. E fria.