Quem cala
Dizem que quem cala consente.
Mas sabes… as pessoas são maiores do que os provérbios, e calar nem sempre quer dizer que estamos de acordo.
Às vezes calamo-nos para não magoar os outros. Porque dizer o que pensamos não vai alterar nada, mas vai ferir. E de mágoas gratuitas já está o mundo cheio.
Ou calamo-nos porque percebemos que não estão a ouvir-nos. Ou estão a ouvir mas não querem saber, e é como dar pérolas a porcos.
Há quem se cale porque falar é perigoso. Fisicamente perigoso. Às vezes pode mesmo significar a morte, para si próprio ou para os seus.
Outros calam-se porque não querem dar-se ao trabalho de falar. Acham que o assunto não é com eles, ou é mas falar vai implicar incómodos, e não estão para isso. Os outros que falem e se mexam, e se daí vier algum benefício, tanto melhor.
E há os que se calam porque estão mergulhados na escuridão – a escuridão da dor, da doença, da desesperança ou da sua própria mente – e já nem têm força para falar.
Há muitos motivos para nos calarmos.
Eu, quando me calo, não é porque estou a consentir. Quando não refilo, não reclamo, não peço, nem sequer toco no assunto, não é porque concordo.
Não é porque estou acomodada.
É porque já desisti.
