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A vida e outros acasos

A vida é uma coisa. O amor é outra. (Miguel Esteves Cardoso)

A vida e outros acasos

A vida é uma coisa. O amor é outra. (Miguel Esteves Cardoso)

Não é fácil viver

 

 

Não é fácil viver no mundo de hoje.

 

Um mundo que parece encolher a cada nova invenção tecnológica, mas onde as pessoas parecem afastar-se cada vez mais umas das outras. Um mundo dividido ao meio por intransigências. Pela violência. Pela fome e pela indiferença.

Um mundo que é um planeta esventrado, abusado, violentado. Um planeta em revolta, que se vinga em tempestades, sismos e inundações. Um planeta condenado à morte, onde o ser humano é o maior parasita, a maior praga que parece decidida a destruí-lo.

 

Não é fácil viver na sociedade de hoje.

 

Divididos entre o que esperam de nós e aquilo que nós queremos ser.

Espartilhados por convenções, vivendo numa manada que é suposto ser coesa, onde cada pessoa tresmalhada é constantemente, insidiosamente convencida a voltar ao redil, sob pena de se tornar indigente ou eremita.

Querendo ser fiéis aos nossos princípios mas tendo de lutar encarniçadamente contra quem nos quer impingir os seus e não olha a meios para o conseguir.

 

Não é fácil viver no nosso país de hoje.

 

Um país onde a esperança é mais fina e frágil que uma gaze.

Onde as pessoas são dispensáveis e menos valorizadas do que uma qualquer máquina, onde quem tem dinheiro tem tudo, e quem apenas vive do seu trabalho muitas vezes se limita a sobreviver.

Um país onde a mentira e o fogo-de-vista se instalaram e os lobos já nem se incomodam em usar uma pele de carneiro; e onde o que ontem era promessa e dado adquirido, hoje faz-se por esquecer, e dá-se o dito por não dito – sem remorso.

 

Não é fácil viver.

E menos ainda acreditar.

 

 

P1440672 cópia tratada.jpg

 

 

Enquanto não voltas

 

Enquanto não voltas, o mundo não vai parar de girar.

As marés vão suceder-se umas às outras e os lobos vão continuar a uivar à lua. Os pássaros farão os seus ninhos, os rios correrão para jusante e o Outono pintará as paisagens em tons de amarelo e castanho.

Quando as flores dos jacarandás caírem, as ruas ficarão atapetadas de roxo e o seu perfume vai permanecer no ar por muitos dias.

Enquanto não voltas, a vida vai continuar.

Os carros irão encher as estradas nas horas de ponta, os pais continuarão a levar os filhos à escola, adolescentes vão suspirar de paixão pelo seu cantor favorito e encher os festivais de música, chorar as suas desilusões amorosas, festejar por tudo e por nada.

Haverá casamentos e nascimentos, e doenças e lutos lacrimosos, guerras estúpidas e loucuras fatais.

Enquanto não voltas, vou continuar no meu caminho.

Levantar-me todos os dias mesmo que não me apeteça, fazer o meu trabalho como sempre, cumprir a rotina só quebrada de vez em quando. Irei às compras ao supermercado, tomar um café com amigos, comover-me com as histórias tristes dos outros e sorrir quando as notícias são boas.

Serei assaltada pelas recordações de bons momentos, farei planos para ir de férias, receberei feliz todos os abraços apertados dos que me querem bem.

Enquanto não voltas, não vou esquecer-me de viver. Mesmo que às vezes custe.

E pode ser que um dia eu já não queira que tu voltes.

 

Bosque Nebuloso de Monteverde (564) cópia 4.jpg

 

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