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A vida e outros acasos

A vida é uma coisa. O amor é outra. (Miguel Esteves Cardoso)

A vida e outros acasos

A vida é uma coisa. O amor é outra. (Miguel Esteves Cardoso)

O teu olhar

O teu olhar persegue-me.

Queima-me a nuca quando estou de costas. Encandeia-me quando me viro para ti. Enfeitiça-me quando sorris. Aquece-me quando me percorre.

Está impresso na minha memória com tinta indelével, assalta-me a qualquer hora do dia, assombra os meus sonhos mais profundos.

Os teus olhos despem-me quando me observas, e fazem-me perguntas que não chegam aos teus lábios.

E os meus olhos respondem aos teus, num namoro recorrente e mudo, em que nenhum de nós dois está disposto a capitular.

 

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Ontem à noite

 

Ontem à noite senti a tua falta.

Quis sentir os teus braços quentes enlaçando o meu corpo.

Quis ouvir a tua voz murmurando sentimentos ao meu ouvido.

Quis aninhar a minha face naquela tua concavidade entre o pescoço e o ombro.

Quis sentir a tua pele colada à minha.

Quis adormecer enrolada em ti.

Ontem à noite apeteceste-me.

 

 

 

 

 

 

Zombie

 

Embrulhada no sono, procuro na cama o teu calor. Deslizo sobre o colchão ao encontro do teu corpo, ansiosa por ti.

Mas as minhas mãos só encontram o nada. A frieza dos lençóis rasga o véu da minha inconsciência. Acordo de repente. Como se batesse contra um muro, a realidade da tua partida atinge-me com força. Sou subitamente invadida por um vendaval de emoções e o terror trepa por mim até o negrume dos seus dedos rodear o meu coração e o apertar como se quisesse exauri-lo de todo o sangue.

Falta-me o ar, falta-me o norte, falta-me o chão debaixo de mim e estou a cair no vazio, sugada pelo buraco negro deixado pela tua ausência, pelo vórtice da dor que me submerge e subjuga, que me esvazia de toda a alma.

É mais um dia que começa, mas esta mulher que aqui está já não é aquela que viveu ao teu lado. É apenas um fantoche sem bonecreiro, um zombie descerebrado e de olhar vítreo que se levanta e se lava e se veste, que sai de casa e conduz e trabalha, que fala e até sorri, e aparenta ser uma pessoa quando na verdade nada mais é do que um corpo que sobrevive, simplesmente sobrevive, alimentado e movido pela débil esperança de que um destes dias tu decidas regressar.

 

Adormecer

 

Deixa-me adormecer no teu peito.

Quero pousar a cabeça aí, nesse local onde por baixo pulsa o teu coração. Aspirar o odor isento de perfume que se solta do teu corpo. Deslizar as mãos sobre a pele que cobre a tua cintura.

Quero fazer do teu ombro a minha almofada, e entrar no sono embalada pelo sobe-e-desce da tua respiração.

Quero pousar o meu joelho na tua anca e tactear as tuas pernas com o meu pé, sentindo os contornos dos teus músculos sob os meus dedos.

Quero percorrer com os meus olhos cada milímetro do teu rosto, esquadrinhar cada poro, cada vinco, demorar-me na cor indefinida dos teus olhos, observar a curvatura das tuas pestanas; depois passar os meus lábios sobre o teu pescoço e o teu queixo, sentindo na ponta da língua um ligeiro sabor a sal, até desceres a tua boca para se encontrar com a minha num beijo sem limites.

E quando finalmente os meus sentidos e o meu corpo estiverem, por momentos, já saciados de te sentir, vou deixar que os meus olhos capitulem e se fechem, para então resvalar, pouco-a-pouco, sem me aperceber, até ao universo paralelo de outros sonhos.

 

 

 

 

 

 

 

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